Capitalismo e crise


"Há conhecimentos conhecidos, coisas que sabemos saber, e há desconhecimentos conhecidos, coisas que sabemos não saber. Mas há também desconhecimentos desconhecidos, coisas que não sabemos não saber." A fala enrolada podia ser de Sócrates, o filósofo, mas é de Donald Rumsfeld, empresário e um dos mais odiados ex-secretários de Estado norte-americanos. Curioso é que a citação apareça em um livro que promete desvendar o que não nos dizem sobre capitalismo e economia globalizada. No tocante a estas coisas, mostra Ha Joon Chang, professor de Cambridge, há um outro tipo de desconhecimento, invisível mesmo para quem lida todos os dias com a superfície do problema.

"23 Things They Never Told You About Capitalism" (ou, na tradução livre, "23 Coisas que Nunca lhe Contaram Sobre a Economia") parte das ideias feitas que inundam discursos e opiniões sobre economia e tenta desfazê-los a partir de exemplos práticos e históricos.

Alguns são bastante cômicos, como por exemplo o mito de que na América Latina todas as casas têm uma empregada doméstica, mas com explicações desconfortáveis, como o fato de os salários dos países ricos estarem sobrevalorizados. Empregadas domésticas em diferentes partes do mundo recebem não de acordo com o que produzem, mas em função daquilo que o setor mais produtivo da sua sociedade produz. O que leva a outra conclusão do autor: os países pobres são pobres no devido à fraca produtividade dos seus ricos e não à abundância dos seus pobres. Outro mito desfeito: os povos mais pobres são de fato os mais empreendedores do mundo, ao contrário dos ocidentais que trabalham, em sua maioria, como empregados, mesmo que exista o culto ao empreendedorismo.

Ha Joon Chang lança também tristes notícias às camadas jovens dos países europeus. "Isoladamente, o aumento da educação não torna um país rico" é uma das premissas para a riqueza. Num plano imediato, a fórmula da produtividade econômica depende muito mais dos processos de mecanização do que da mão-de-obra qualificada, explica. O exemplo dado é o da Suíça, aonde afrequência acadêmica é baixa, no entanto, é um dos países com o mais alto PIB per capita do mundo.

O autor une-se à voz de muitos outros economistas, documentaristas e jornalistas, na condenação à falta de regulamentação dos mercados. A maioria dos "fatos" do livro são objeções e contra-exemplos às políticas de mercado livre. O "fato n.o 1" defende que o mercado livre não existe. A "fato n.o 2" defende que "as empresas não devem ser geridas no interesse dos seus proprietários". O que pode parecer um contra-senso para a maioria das pessoas é fundamentado pela rapidez com que acionistas proprietários entram e saem de uma empresa, não trazendo grandes benefícios e ganhos a longo prazo.

O pior, conclui, é que os mitos se expandem não só pela população mundial mas também entre os políticos. A culpa da crise, advoga, mais do que da ganância de alguns, é da ignorância de muitos.


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