A Infidelidade Assumida


Nos sites de namoro da internet, há muita mentira e traição. Muita gente se diz disponível, mas na verdade não está. Estima-se que 30% sejam casados ou mantenham um relacionamento estável, embora afirmem ser solteiros, separados, divorciados ou viúvos. Mentir sobre o estado civil pode ser uma forma de tentar atrair mais parceiros e também de autoproteção. Nem todo site de namoro oferece a combinação de discrição, segurança e conforto desejada por quem quer "pular a cerca". O slogan do site - "A vida é curta. Tenha um caso" - não deixa dúvidas quanto às intenções. "Queremos oferecer um ambiente para quem for casado poder encontrar parceiros na mesma situação e ser aberto e honesto sobre o que está procurando", diz o empresário canadense Noel Biderman, fundador do Ashley Madison.


Criado em 2002 em Toronto, no Canadá, o Ashley Madison tornou-se uma espécie de meca digital do adultério. Hoje, segundo Biderman, está presente em dez países, sem contar a Espanha, onde deverá ser lançado em maio. De acordo com ele, há 8,7 milhões de usuários em todo o mundo - 6,8 milhões só nos Estados Unidos (leia o quadro ao lado). Em 2009, o site lançou aplicativos para iPhone e BlackBerry, que permitem acessar o serviço pelo celular sem deixar pistas eletrônicas para mulheres e maridos desconfiados.

Como nos sites convencionais de namoro, o Ashley Madison oferece aos usuários perfis personalizados, com suas preferências sexuais, conversas on-line e troca de mensagens. Eles não pagam nada para preencher seus perfis no site e navegar pelos perfis alheios. Só pagam para enviar as primeiras mensagens a quem lhes interessar. As demais mensagens ao mesmo usuário são gratuitas. Lá fora, o site vende um pacote de créditos que pode ser usado para contatar até 20 pessoas por US$ 49. No Brasil, o preço ainda não está definido. É um sistema que os americanos chamam de pay as you play (pague à medida que se divertir). Apesar de ser voltado para os casados, não há nenhuma barreira a solteiros que queiram se relacionar com alguém casado."Muitas mulheres que se cadastram no site se dão conta de que nem precisarão comprar os créditos e poderão encontrar seus próximos amantes de graça", diz Biderman. "Os homens é que vão comprar e estabelecer a comunicação."

Graças ao interesse que o assunto desperta nos países em que o site atua, Biderman - que afirma viver bem com sua mulher, com quem tem dois filhos - consegue uma exposição significativa na mídia. Nos EUA, já participou de alguns dos principais programas de TV, como Dr. Phil, Ellen Degeneres, Tyra, o do ex-apresentador Larry King, na CNN, ou o noticiário Good morning America, da ABC. O site foi tema de reportagens nas revistas Time e Vanity Fair. Em fevereiro, o Ashley Madison foi estrela de uma reportagem de capa da revista Bloomberg Businessweek, sobre a "economia da infidelidade" e a "invenção do mercado do adultério". A divulgação na mídia é reforçada por um pesado investimento publicitário. Em 2010, Biderman afirma ter gastado US$ 12 milhões em publicidade só nos EUA, em outdoors, TVs e rádios. Num de seus comerciais, um casal vive momentos de paixão. E surge o letreiro na tela: "Eles são casados... Mas não um com o outro".

Biderman espera alcançar no Brasil o mesmo sucesso obtido no exterior. Ele pretende amealhar de 2 milhões a 3 milhões de usuários no país em um ou dois anos. Se essa expectativa se confirmar, o Brasil ocupará o terceiro lugar no ranking global de usuários do site, atrás apenas dos EUA e da Alemanha. "O Brasil é um dos países mais infiéis do planeta", afirma.

Para sustentar sua afirmação, ele cita uma pesquisa realizada em 24 cidades de dez países pela jornalista americana Pamela Druckerman. Ela se interessou pelo tema da infidelidade quando morou no Brasil na década passada, como correspondente do Wall Street Journal, a bíblia financeira americana, e diz que, na época, foi muito cortejada por homens casados. A pesquisa, mencionada em seu livro Na ponta da língua (Editora Record), lançado em 2008, revela que, no Brasil, 12% dos homens afirmam ser infiéis, um dos índices mais altos do mundo. Nos EUA, são 3,9%. Na França, 3,8%. Biderman conta que, antes mesmo do lançamento do site brasileiro, já há 190 mil brasileiros registrados na versão americana tentando encontrar um parceiro para uma escapada, aqui ou lá fora. "Quando analisamos os acessos de brasileiros ao site americano, o tamanho da economia do país e os dados de comércio eletrônico e tráfego on-line, o Brasil parece representar uma grande oportunidade para nós."

Ao mesmo tempo que busca apoio nas estatísticas, Biderman diz que é preciso vê-las com reserva. Ele diz que, em geral, poucas pessoas admitem que são infiéis, especialmente as mulheres. No Brasil, de acordo com a pesquisa de Pamela Druckerman, apenas 0,8% das mulheres admite ter relacionamentos extraconjugais. Pelos cálculos de Biderman, se as informações sobre a infidelidade no país estiverem certas, cada mulher infiel teria de manter relações com 15 homens diferentes - o que é pouco provável. Ele recorre às informações reveladas pelos usuários do site para afirmar que a infidelidade feminina no Brasil é maior que isso. Do total de brasileiros cadastrados na versão americana do Ashley Madison, as mulheres representam 25% - proporção que atinge, em média, 30% nos dez países em que o site atua e chega a 40% na Austrália. "Meu palpite: é bastante desencorajador para as mulheres ter um caso no Brasil, mas elas têm, mesmo correndo riscos", diz ele.

Biderman afirma que para os homens há muitos serviços de relacionamento extraconjugal, como garotas de programa, acompanhantes e casas de massagem. Para as mulheres, a possibilidade de encontrar uma compensação para a afeição e a intimidade não correspondidas é menor. Por isso, ele procura centrar o marketing do site no público feminino. "Se as mulheres puderem fazer isso de forma discreta, sem ser descobertas ou sem ter de se envolver com um amigo ou alguém do trabalho, elas vêm correndo", diz. "Quando os homens descobrem onde as mulheres estão, eles vêm correndo também."

Muitas vezes, Biderman é acusado de estimular o adultério, promover a promiscuidade e construir um negócio em cima de corações partidos. Recentemente, a Fox, uma das maiores redes de TV americanas, recusou-se a aceitar um comercial do site que deveria ser veiculado durante um jogo do Super Bowl, a liga do futebol americano, sob a alegação de que era "inadequado" ao público. O Facebook, maior rede social do mundo, seguiu o mesmo caminho. Aos críticos, Biderman diz que não é capaz, sozinho, de estimular ninguém a cometer o adultério. "Isso é algo que faz parte da vida das pessoas. Somos só uma plataforma", afirma. "Nenhum site ou anúncio de 30 segundos na TV vai convencer ninguém a trair. As pessoas traem porque a vida não funciona para elas."


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