Na ilha onde Mandela esteve preso


Cinco quilometros quadrados de mato, pinguins e o que sobra da História. Foi nesta ilha que, ao longo de 18 anos, Nelson Mandela aprendeu a ficar cada vez mais forte. Isso mudou a África do Sul e continua a ser uma inspiração para o mundo. Todos os dias se enchem barcos para ir ver a cela 466/64. Conheça Robben Island, África do Sul, a ilha e a prisão aonde Nelson Mandela fez as suas reflexões e traçou seus planos futuros para a construção de uma País e de uma sociedade mais justa para a raça negra da África do Sul.


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Descoberta por Vasco da Gama a ilha foi usada como entre posto e prisão




"Robben" quer dizer foca, e era essa a população local quando as primeiras naus chegaram: focas e pinguins. A cronologia começa em 1498, com o desembarque de Vasco da Gama. Localizada entre o Oceano Atlântico e Oceano Índico, a ilha tornou-se armazém, correio e prisão - por exemplo, do africano Autshumao, um mito que deu força a Mandela, como ele mesmo conta na sua autobiografia, Um Longo Caminho Para a Liberdade: "Eu encontrava consolo nas memórias de Autshumao, porque ele é considerado o primeiro e único homem que alguma vez conseguiu escapar de Robben Island, e fez isso remando até à costa num pequeno barco."


Depois, ao longo de séculos, holandeses, ingleses, afrikaners foram levados para Robben Island, revoltosos, criminosos, leprosos e doentes mentais. Em 1961, o apartheid transformou a ilha em "prisão de segurança máxima" para condenados políticos e "prisão de segurança média" para delito comum.

Foi num dia de Maio que Nelson Mandela pisou pela primeira vez nesta ilha. Tinha sido trazido do Norte por estrada, noite e dia, acorrentado a outros prisioneiros e na chegada, enfiaram-nos no porão de um velho ferry com um buraco no teto para entrar ar, que os guardas usavam como pinico.

Agora os ferrys levam turistas, ao lado de negros e mestiços com grandes trouxas de pano e plástico.

- Trabalhamos na ilha - explica um sorridente Jonathan, levantando a pala do boné. - Eu corto a erva, limpo as trilhas, e tenho aqui comida para uma semana. Hoje em dia a ilha são apenas cinco quilometros quadrados de mato, 40 mil pinguins e o cimento que sobrou da História.

Aos 59 anos, já avô, ganha 2500 rands por mês (250 euros) para limpar as trilhas de Robben Island.

- Mandela lutou para estarmos unidos como um. Quando ele estava na cadeia eu já trabalhava aqui, mas não havia nada disto, o cais, com estes edifícios.

Os minutos passavam como anos, e os anos como minutos, disse Ahmed Kathrada, companheiro de Mandela no processo Rivonia, que em 1964 condenou a prisão perpétua vários membros do ANC, o partido de toda a luta contra o apartheid, atualmente no poder.

Uma das primeiras coisas que Mandela fez na prisão foi um calendário. De resto, as 200 páginas que Robben Island ocupa na sua autobiografia são um manual de sobrevivência física e moral. Acreditar na saída: a prisão não é para sempre. Pensar em grupo: os fortes levantam os fracos e todos se fortalecem. Estudar o inimigo: impedi-lo de nos quebrar. A prisão política visa "roubar a dignidade", e por isso o mais difícil é o castigo na solitária, em que temos de manter a razão e ser fiéis a princípios, sem ninguém como testemunha.

Cada homem era acordado às 5h30 na sua cela. Às 6h45 iam limpar os vasos sanitários, momento em que os guardas evitavam chegar perto, e os prisioneiros aproveitavam para colocar a conversa em dia. No café da manhã, os negros não tinham direito a pão. Comiam sempre umas papas de milho, e na solitária só mesmo sopa de arroz. De manhã até à tarde, o trabalho era quebrar pedras.

No que restava de tempo, o advogado e líder natural Nelson Mandela preparava defesas, aproveitando cada milímetro da lei, ou petições básicas, como direito a usar calças.

Por serem prisioneiros políticos, estavam na categoria D, a mais baixa, aquela que só podia receber uma carta e um visitante a cada seis meses, sendo que as cartas chegavam em fiapos, depois dos cortes da censura, e as visitas demoravam 30 minutos sem privacidade nem contato físico. Chegar a Robben Island implicava voar até à Cidade do Cabo e depois atravessar de barco. Para desencorajar visitas, o regime dava autorizações somente de hoje para amanhã. Houve prisioneiros que ficaram dez anos sem uma visita.

Para Mandela, ficar preso assim significou foi ver a mãe doente somente uma vez numa breve visita, saber depois que ela morrera, e não poder sair para o funeral. Significou o momento sem palavras em que leu a notícia da morte do filho, e ficou na cela, em silêncio, de mãos dadas com o seu camarada Walter Sisulu. Significou ver a filha de 15 anos que não via desde bebé, e outra filha já casada trazer-lhe o neto. Significou, a cada dia, ao longo de anos, limpar o pó à fotografia de Winnie, e esfregar o nariz no nariz dela, para sentir a corrente eléctrica que os ligava, desde o primeiro dia em que a vira na rua.

O relato de Robben Island é também o testemunho desse amor. Mandela trabalhou para nunca perder a cabeça, mas perdia a cabeça pela mulher, quando a insultavam ou a faziam sofrer.

De resto, era um líder pragmático, que aprendeu a conquistar a pulso o respeito dos carcereiros. Em cada homem, acreditava ele, há um âmago decente a que é preciso chegar. Depois da prisão, foi aos confins da África do Sul perdoar aos seus mais ferozes inimigos.

Como antes soube fazer a ponte com os jovens cheios de fúria que foram mandados para Robben Island, vindos da revolta do Soweto, em 1976. Eram parte do Movimento da Consciência Negra e julgavam Mandela moderado demais. Um caldo em ebulição, tendências e naturezas em luta. Mas se Robben Island ficou conhecida entre os ex-prisioneiros políticos como "Universidade", foi pelo que aprenderam uns com os outros.

Além disso, quando as condições melhoraram, os prisioneiros puderam estudar. Mandela, por exemplo, aprendeu afrikaans, a língua do regime que o condenara para a vida. Era outra forma de ficar mais forte.

E cantavam, jogavam damas, bridge e xadrez. Representavam os gregos, e Mandela inspirava-se na Antígona, liam autores russos, e Mandela inspirava-se em Tolstoi.Quando em 1976 lhe ofereceram a libertação em troca de boca calada, recusou. Foi escrevendo as memórias e começou a plantar um jardim. Era a sua ilha fértil, vital. Às vezes uma planta morria, por mais que a tentasse ressuscitar, mas Mandela também aprendeu que isso fazia parte de seguir em frente.

Hoje em dia centenas de turistas vindos do mundo todo querem visitar a cela 466/64 que significa o 466º prisioneiro a chegar em 1964. Parede verde-água, teto branco, grades brancas, chão de cimento, janela bem altas.

Um espaço onde um homem de pé pode apenas abrir os braços, e é tudo.




5 quilometros quadrados quadrados de mato, 40 mil pinguins e o cimento que sobrou da História




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