Os Filhos de Juliano


O número de telefone do Juliano ainda está no meu celular: 972 545898285. Penso em ligar. É madrugada em Portugal mas em Israel ou em Jenin já deve ser dia. Será que a mulher dele, grávida de gêmeos, irá atender? Ou a babá, que levou um tiro de raspão, quando Juliano Mer-Khamis foi assassinado por cinco homens armados em frente ao filho de dez meses e à porta do teatro que fundou para crianças palestinianas no campo de refugiados de Jenin? Talvez o número tenha sido desligado a pedido do próprio Juliano depois de algumas ameaças?

Resolvo então recordar a sua voz. Vasculho na estante de casa o DVD que comprei em 2007 quando nos encontrámos no Brooklyn, Nova Iorque. As imagens de carros e o barulho de buzinas invadem a tela. Uma senhora grita e protesta contra os soldados israelitas. É a vez da voz de Juliano invadir a tela: “Esta é a minha mãe, Arna. Ela nasceu numa família judia numa aldeia na Galileia. A sua cabeça está coberta pelo keffiyeh porque ela perdeu o cabelo depois de um tratamento de quimioterapia de um cancro terminal. Alguns dias atrás, contrariando as ordens dos médicos, deixou o hospital para organizar este protesto contra o cerco israelita ao campo de refugiados de Jenin.”

No dia 30 de Abril de 2007, os meus alunos do mestrado de relações internacionais da New School, em Nova Iorque, assistiam ao relato de Juliano em “Arna’s children” ( As crianças de Arna), no documentário realizado por Juliano Mer-Khamis sobre a mãe, que lutara pela criação do Estado de Israel e mais tarde fora banida de tudo e por quase todos por ter se casado com um palestiniano; a luta da mãe para criar e manter uma escola de teatro para crianças no campo de refugiados em Jenin; as aulas de interpretação que o próprio Juliano dava as crianças palestinas. Imagens de rapazes sorridentes ensaiando (Yussef, Ashraf, Alla) desfilam na tela enquanto a voz de Juliano revela, que anos mais tarde, em 2001, Yussef cometera um ataque suicida, Asharf morrera na “batalha por Jenin” e Alla liderava um grupo de resistência que também o levaria à morte. Durante 84 minutos, a voz de Juliano não se cala. Ele volta ao campo para ver o que aconteceu com as crianças que amava. Os jovens estudantes de Nova Iorque não conseguem desgrudar os olhos da tela.

Um mês antes, Mariam Said, viúva de Edward Said (o intelectual, que para muitos, colocou no mapa do mundo ocidental a causa palestina), falara-me que Juliano Mer-Khamis estaria em Nova Iorque em Abril. Ela fazia parte do grupo de amigos do Freedom Theater - teatro da liberdade –, a escola fundada pela mãe de Juliano que ele decidira reabrir. “Você tem que conhecê-lo, é uma força da natureza.”

A ideia era que ele fosse à universidade falar com os alunos. Não era possível pois coincidia com o mesmo dia em que Juliano teria encontro com possíveis financiadores do projeto. Precisava de dinheiro para manter a escola aberta no campo de refugiados. Mas por que não ia eu com os alunos à casa de um dos amigos do teatro, no Brooklyn, para conhecer mais o projecto e o próprio Juliano?

Do terraço do prédio baixo numa rua deserta do Brooklyn, via-se os arranha-céus de Manhattan. A voz de Juliano era incessante: firme, apaixonada, determinada, por vezes zangada, mas sem subterfúgios. E também terna e serena. Falava do teatro, das crianças, do filme, da última peça, da ocupação. Mostrava imagens de uma peça. Não havia mais do que 12 pessoas. Israelitas, americanos, palestinianos. Só uma aluna pudera ir. Margaret era surda-muda. Nas aulas, tínhamos sempre um intérprete. Aqui ela e Juliano entenderam-se.

Foram três ou quatro horas naquela noite em Brooklyn. No terraço, lembro-me dele, com um copo de vinho à mão, com um sorriso nos lábios. No sofá, como se nos conhecêssemos há anos, me falando sobre seus projetos. Eu iria pela primeira vez a Israel e aos territórios palestinos no Verão daquele ano. Talvez pudéssemos filmar o seu trabalho, Juliano deu-me um número de telefone. Lembro-me de te-lo gravado no meu celular 972 545898285 e de ter escrito J-U-L-I-A-N-O sem a necessidade do sobrenome.

Nunca liguei. Mas ao remexer as gavetas dos armários de casa, esta madrugada, encontrei o trabalho de final de curso de uma das minhas alunas. Era sobre o filme de Juliano. Reescrevia a cena do documentário em que o menino Yousef explica como, no início, achava que Arna Mer-Khamis e o filho Juliano Mer-Khamis eram espiões israelitas. E de que como, agora, amava e respeitava os dois como uma mãe e um irmão. A câmara “pula” do close Yousef para a cena de adeus gravado por Yousef anos mais tarde antes de cometer um atentado suicida em Israel. Ao longo do filme, ouvimos a voz de Juliano contando que o filho de Yousef nasceu duas semanas antes do pai morrer. A aluna escreveu: o documentário nos faz perguntar. Porquê?

Juliano Mer-Khamis foi assassinado no dia 04 de Abril de 2011, em frente à escola de teatro em Jenin e diante do filho de 10 meses. Deixou a mulher grávida de gêmeos. Deixou as 700, 800 crianças que todos os anos atuavam nas montagens do Teatro da Liberdade.


Fonte: Simone Duarte - Jornal Publico


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