O Pai do Biodiesel



Expedito José de Sá Parente, nascido em Fortaleza no dia 20 de outubro de 1940 e falecido no dia 13 de setembro de 2011. Graduou-se na Escola Nacional de Química da então Universidade do Brasil (atualmente Universidade Federal do Rio de Janeiro), no ano de 1965, obtendo o mestrado em Ciências da Engenharia Química no ano seguinte, também na UFRJ. Concluiu ainda cursos de especialização em tecnologia de óleos vegetais e em engenharia de óleos vegetais, no Instituto de Óleos do Ministério da Agricultura, e em Tecnologia de Couros, na École Française de Tannerie, em Lyon, na França.

A partir de 1967, Expedito Parente tornou-se professor assistente da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, passando ao cargo de professor adjunto em 1975. Foi na UFC, no final da década de 1970, que Expedito Parente desenvolveu o método de produção de biodiesel que viria a submeter ao INPI em 1980, tendo sido garantida em 1983 a patente PI - 8007957 ("Processo de Produção de Combustíveis a partir de Frutos ou Sementes Oleaginosas"), a primeira patente no mundo para um processo de produção em escala industrial de biodiesel. Todavia, devido ao desinteresse do governo brasileiro na época (em parte devido ao esforço dedicado ao Pró-álcool), o processo desenvolvido por Expedito Parente nunca foi efetivamente utilizado, e tendo decorrido o prazo de validade da patente, ela entrou em domínio público.

Nos anos 80, criou um sistema de produção de alimentos de baixo custo e alto valor nutricional, para crianças carentes. Deu assistência a vários governos estaduais. Em 1994, aposentou-se como professor e continuou as atividades como empresário.

Em 2005, ganhou prêmio após apresentar o projeto do bioquerosene, criado junto com o biodiesel, numa conferência da ONU na China. Era um homem muito irreverente, diz a família. Costumava falar que as pessoas têm o dever de ser felizes.

Confira a entrevista desse pioneiro concedida à revista Sebrae Agronegócios

SA - O que motivou o senhor a iniciar as pesquisas com biodiesel?

EP - Nos anos 70, eu pesquisava tecnologias de produção de álcool na Universidade Federal do Ceará, utilizando matérias-primas não-convencionais, como mandioca, amidos e madeira. Na época, com a crise do petróleo, o governo brasileiro estava muito preocupado em encontrar um substituto para o petróleo. Mas eu percebi que o álcool de nada influenciava a economia de petróleo, pois o País continuaria dependente das importações. Eu acreditava que o Brasil precisava de um substituto para o diesel, que é um combustível mais coletivo.

SA - Naquele tempo, alguém falava em biodiesel?

EP - Não, na época ninguém sabia o que era isso. Todo mundo só falava em álcool como combustível limpo, renovável, para substituir a gasolina. O governo tinha lançado o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) em 1975, para estimular a produção de etanol. As pesquisas com álcool passaram a receber grandes investimentos, pois, na época, o açúcar tinha caído de preço no mercado internacional e era preciso encontrar outra função para a cana.

SA - Por que o senhor apostou na pesquisa do biodiesel, mesmo quando o País estava voltado para a produção de álcool?

EP - Eu acreditava que o diesel tinha um valor estratégico para o País muito mais importante que o do álcool. O etanol não serve para navio, trem, trator, caminhão, ônibus, nem para gerar energia elétrica. É um combustível para veículos de passeio. Eu tinha autonomia para fazer minhas pesquisas na universidade. Então, me senti à vontade para tocar meu próprio projeto.

SA - Como o senhor chegou até o processo de obtenção do biodiesel?

EP - Eu tive uma inspiração em 1977, observando o fruto do ingá, que tem óleo na semente. Quando concebi a idéia, em um domingo, já estava com o processo na cabeça. Na segunda-feira, fui para o laboratório e fiz a reação química. Foi muito fácil. Para fazer a transesterificação, utilizei óleo de algodão e metanol. O resultado foi o biodiesel, idêntico ao que conhecemos hoje.

SA - Qual foi a reação da comunidade científica?

EP - No começo, o trabalho era muito artesanal, eu trabalhava muito sozinho. Não houve repercussão, porque a notícia não foi divulgada.

SA - O senhor buscou financiamento para sua pesquisa?

EP - Fui até a Companhia Energética do Ceará (Coelce) pedir apoio, na base do clamor pessoal. A empresa tinha um departamento de motores extremamente organizado e resolveu testar o meu combustível nos veículos usados para manutenção das linhas de transmissão. Eu comecei a produzir quantidades maiores de biodiesel, testamos nesses veículos, e os resultados foram extremamente promissores.

SA - Quando o senhor percebeu que seria interessante patentear a descoberta?

EP - A pesquisa foi evoluindo, e eu percebi que estava diante de um trabalho inédito no mundo. Até então, apenas a China tinha feito umas pesquisas na época da II Guerra Mundial, mas tinha abandonado o projeto. Em 1980, entrei com o registro de patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). O registro saiu em 1983.

SA - Com a patente, o senhor obteve reconhecimento?

EP - Não, ninguém deu valor para isso. Todo mundo estava voltado para produção de álcool, que tinha todo um cenário favorável e cujo mercado era dominado por grandes usineiros, antigos senhores de engenho, pessoas de poder. Não tive retorno financeiro com a patente, porque, quando a tecnologia não é usada comercialmente em dez anos, entra em domínio público. Foi o que aconteceu.

SA - O que o senhor vislumbrava para o biodiesel naquela época?

EP - Eu tinha a melhor visão possível, sabia que era mais importante estrategicamente do que o álcool. Já tinha me dado conta dos aspectos sociais do biodiesel: enquanto o álcool era concentrador de riquezas, o biodiesel poderia ser distribuidor.

SA - O senhor buscou apoio do governo?

EP - Sim, procurei a Petrobras, o Ministério de Minas e Energia. Mas só recebi apoio do Ministério da Aeronáutica para a realização de testes.

SA - Quando o senhor soube que o biodiesel já era usado fora do Brasil?

EP - Em 1999, eu estava na Europa e vi um posto comercializando biodiesel puro na Alemanha. Fiquei triste, frustrado, por aquilo estar funcionando lá fora e não ser reconhecido no Brasil.

SA - Quando a sua pesquisa passou a ser valorizada?

EP - O lançamento do biodiesel ocorreu no dia 31 de outubro de 1980. Em 1984, abandonamos as atividades. Em 1998, o biodiesel voltou a ser assunto no Brasil. Em 1999, com a ajuda do Sebrae no Ceará e de parceiros, criamos um protótipo da usina. Em 2003, no início do Governo Lula, levamos esse protótipo para o Congresso Nacional. A partir daí as minhas pesquisas a respeito do biodiesel passaram a ser valorizadas. Porém, o reconhecimento mais importante recebi na China em dezembro de 2005. Foi o Blue Sky Award (Troféu Céu Azul), o mais importante prêmio de tecnologia e ciência concedido pela Organização das Nações Unidas. O prêmio foi concedido por causa da descoberta do bioquerosene, que aconteceu na mesma época do biodiesel, no final da década de 70. Após conversas com ministros militares da época, o combustível chegou a ser utilizado em um avião Bandeirante, da Embraer, que voou em outubro de 1984. Mas, da mesma forma como aconteceu com o biodiesel, o projeto foi engavetado.

Em maio de 2006, fui chamado a uma reunião em Seattle, com representantes da Boeing, a maior fabricante de aviões no mundo, da Nasa (agência espacial norte-americana) e do governo dos EUA. Continuamos nossas pesquisas do bioquerosene com a Boeing. Recentemente, fui convidado pela Boeng para o lançamento do Boeing 787.

SA - O que o senhor fez quando percebeu que a tecnologia estava sendo utilizada fora do Brasil?

EP - Quando voltei da Europa, criei uma empresa, a Tecbio. Foi quando desenvolvi um protótipo de uma usina de pequeno porte, com apoio do Sebrae. Era um equipamento compacto, com capacidade para produzir cem litros de biodiesel por hora. Nós levamos essa máquina para o Congresso Nacional e fizemos uma demonstração para os parlamentares e para o governo. Foi uma impulsão tecnológica, que deu origem à discussão na sociedade. Quando o Governo Lula tomou conhecimento da tecnologia, percebeu a função social do biodiesel.

SA - Com o apoio do governo federal à produção de biodiesel, o senhor passou a obter retorno econômico?

EP - Hoje, somos os maiores fornecedores de usinas de grande porte para o setor privado. Este ano, estamos instalando equipamentos com capacidade para produzir o equivalente a 72% do biodiesel necessário para cumprir a meta do B2 (a adição de 2% no diesel até 2008). Atualmente, os nossos clientes vendem 600 milhões de litros de biodiesel para a BR Distribuidora (subsidiária da Petrobras). Fabricamos plantas industriais, de milhões de toneladas por ano, para produção em escala. Mas também temos outra empresa, que fabrica máquinas de pequeno porte, usando a tecnologia da transesterificação. Existem dois modelos de equipamentos: um com capacidade de produzir 100 litros de biodiesel por hora e outro com capacidade de 500 litros por hora. As máquinas custam, respectivamente, R$ 400 mil e R$ 1,2 milhão. Essas usinas são ideais para localidades isoladas da Amazônia. Estamos licenciando tecnologia para a Europa, Ásia, e temos convênios com instituições americanas. Hoje, somos acreditados.

SA - A que o senhor atribui o sucesso de hoje?

EP - À determinação e à perseverança. Foi preciso ter uma boa dose de persistência, acreditar no que eu estava fazendo. Eu trabalhava com o cenário atual, mas estava sempre pensando nas modificações que poderiam ocorrer. Você não pode abandonar suas idéias, mesmo quando poucos acreditam nelas.

SA - Que cenário o senhor antevê para o biodiesel?

EP - O biodiesel vai ter uma importância pelo menos 40 vezes maior do que o álcool. É um combustível que atende às reais necessidades de sustentabilidade do mundo, porque pode ser obtido de diversas matérias-primas. Além de todos os impactos sociais e ambientais favoráveis, há vantagens nas relações com o setor de alimentos. Toda oleaginosa tem percentual protéico, que pode ser aproveitado na produção de rações, por exemplo. Mas precisamos trabalhar de forma equilibrada, no sentido de reabsorver o gás carbônico que produzimos.

SA - Em sua opinião, o Brasil vai liderar o mercado de biocombustíveis?

EP - Não tenho dúvida de que, em pouco tempo, vamos chegar lá.

Fonte: Revista Sebrae Agronegócios, nº5.


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